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Minha Vida não vale uma crônica
Minha vida não vale uma crônica. O que é uma crônica? Quanto vale uma vida? O professor munido de Pilot Vermelho riscou o quadro. Em letras garrafais impôs o desafio. Foi aí que voltando o pensamento para mim mesmo (sic)*. Percebi, aterrorizado, a verdade cruel. Seria a grama do vizinho mais verde? Seria a festa no apartamento ao lado? Onde estaria a caixinha mágica que os cronistas profissionais se alimentam? Porventura, seria ela acessível a todos?
O tiquetaque do relógio imaginário tiquetaqueava. Os ponteiros deslocavam-se de um ponto ao outro. Idéias desconexas, convulsas, descompassadas e limitadas assaltavam a mente, mas nada era capturado pela pobre massa cinzenta. Em um surto psicótico a esferográfica freneticamente impregnava o papel. Ou seria psicografia?
Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque...
A hora do almoço se aproximava, refletindo em roncos estrondosos no estomâgo.
Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque...
O suor escorria pela testa...
Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque... Tiquetaque...
Não havendo nada para ser dito. Não havendo nada que valesse realmente a escrita de uma crônica... Então, resignado aceitei o fato e, canetei o ponto final.
Davidson Davis
* Aqui a expressão latina “sic” (assim como foi dito) ganha sentido diverso do usual. Deve ser entendida como: assim com eu próprio imaginei.
Escrito por Davidson Davis às 12h19
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Outro dia quase bati as botas
Outro dia quase bati as botas. Estava na casa de uma tia para passar o fim de semana. O relógio contava algo em torno de uma da manhã de um sábado (quer dizer: domingo). Não estava calor e, sim, fazia até um pouco de frio. Mas sabe aquelas noites frias que mesmo inexplicavelmente pedem um bom banho gelado? Ainda no Box, meu pé deslizou no piso molhado. Por um breve instante, experimentei flutuar na ausência da força da gravidade, até que ela se fez presente. Milagrosamente consegui evitar o pior, salvei minha vida que pode não ser grande coisa, mas é minha. O coração veio à boca. Na tarefa de equilibrar meu corpo, causei algum barulho, derrubando uma prateleira repleta de frascos de shampoo. O que só mais tarde vim perceber que teria sido uma forma de alertar da tragédia que se desenhara naquele cômodo de paredes azulejadas. Em síntese, eu poderia ser socorrido mais rapidamente de forma que não viesse a falecer.
Passado o susto, imaginei como seria o meu fim trágico. A têmpora se chocaria com violência contra o piso. O sangue de um vermelho vivo escorreria pelo ralo, diluindo-se com a água acumulada num desnível do Box. Enquanto isso, lá fora, os que ainda estavam acordados, notando minha demora, imaginariam o que eu fazia trancado naquele banheiro, certamente, em algum momento, cogitariam a possibilidade de eu estar me aliviando do excesso de testosterona. Não obtendo resposta aos súplicosos chamados, arroubariam a porta e encontrariam meu corpo magricelo contorcido no chão, entre as pernas delgadas meu pênis flácido envolvidos por densos pêlos negros e em minha face uma expressão de espanto. Penso que eu poderia ter agonizado por um tempo. Um filmeco trash passaria como um flash. Depois disso ninguém mais seria capaz de usar aquele maldito banheiro sem lembrar do jovem que ali, perdera sua vida.
Escrevi trágico mais acima, pois não tive coragem de escrever cômico, banal: morte de merda! Deve ser enorme o número de pobres velhinhos que morrem escorregando nos banheiros dos asilos tristes ou por negligência daqueles que deveriam amá-los, ou simplesmente impelidos pela fatalidade da vida. De jovens, nunca ouvi falar de um caso sequer. Eles geralmente morrem dentro de suas máquinas possantes (que não tenho) ou de modo mais aventureiro. De fato: há algo de poético e assustador na morte prematura. Minha mãe chorosa me tomaria nos braços tentando em vão me restituir à vida. Minha irmã se desesperaria imóvel, perderia o companheiro de conversas tresloucadas e lamentaria não termos podido mudar o mundo juntos. Minha tia clamaria a Deus. Meu primo atordoado procuraria a chave do carro. Meu tio acordaria assustado pelos gritos. Meu irmão, que só chegaria no dia seguinte, choraria mais do que no dia em que joguei um cinzeiro pesado em sua cabeça.
Meus companheiros da faculdade depois de dias consecutivos de minha ausência, ligariam para minha casa e incrédulos tomariam conhecimento da tragédia. A essa altura, já teriam perdido o velório e o enterro, mas com um pouco de sorte e boa vontade, poderiam ainda comparecer a missa de sétimo dia, que custaria uma quantia de R$ 3,00 para ouvir meu nome ser pronunciado errado pelo sacerdote. DA-vidson Da-vis. E uma prece um tanto apressada. Algumas lágrimas seriam derramadas. Quem sabe na formatura, não me fariam uma homenagem?
Gabriel, meu afilhado, sentiria saudades por um tempo, depois, devido a pouca idade, acredito que esqueceria e, só mais crescido saberia o que havia acontecido. Seus pais não poupariam elogios ao defunto. Meu orkut receberia mais mensagens do que jamais recebera antes. Quem sabe não fariam uma comunidade: “Volta Deivinho!”. Ou seria muita pretensão de minha parte? Eu, por razões óbvias, não responderia mais os e-mails de Sandrele, e, num domingo de sol alegre, ela faria um DDD para minha casa, e depois de desligar o telefone, atônita, choraria amargamente por longos dias. Lamentaria o fato de nunca termos nos conhecidos pessoalmente. Temperança perderia a sagacidade; Rogério, o companheiro de Bola-Preta.Thiago-bodinho derramaria suas lágrimas saudosamente pelas merdas que já fizemos. E embora não confessasse a ninguém, perder para o Flamengo não teria mais a mesma graça. Jorge, Jorjão, Marcos Fernando e Everton enalteceriam o valor do meu futebol. Léo contaria alguma estória da forma que somente ele saberia contar. Aline olharia o relógio às 12 horas do dia 12 de dezembro de 2012 e, iria rir ao lembrar de alguma piada de gago. Os Dês já não seriam mais três. Daniele evocaria as nossas “aulas de química” e o quanto eu era um mau aluno. E jamais saberia por que não cumprir a promessa de seqüestrá-la no dia do seu casamento. Herick, Negão e Luís não esqueceriam as idas e vindas de nossas farras. Tia Angélica e as meninas, de quanto eu gostava de torta salgada. Dona Fátima, de nossas conversas no fim de tarde. O pessoal da igreja de quanto eu brincava mesmo com os assuntos mais sérios (sic). Alanzinho, em desespero, procuraria em vão o mapa do tesouro que enterramos no quintal da sua casa.
Eu não poderia terminar os livros que comecei. E nem as crônicas que não escrevi. E nem ler tudo aquilo que desejaria. Não faria os filmes que sonhei. E nem observaria a mudança de cor no céu ao entardecer, sem perder um momento sequer. Não voltaria a comer sardinha frita acompanhada de vinho com açúcar. Nem dançaria mais nu em frente ao espelho. E nem ao menos poderia perdoar a todos aqueles de que zombei. Nem tomaria mais banho de chuva. Ah, quanta coisa deixaria de fazer. Não conheceria a menina morena, e nossas futuras tardes divertidas num quartinho dos fundos. Nem tantas outras Estrogildas, Marias, Irenes e Paulas. Até conhecer aquela que me daria mais quatro razões para odiar ter morrido naquele maldito banheiro. São Pedro ouviria umas poucas e boas...
No velório, meu rosto não muito comercial diriam estar lindo, puro e juvenil. O cheiro das flores impregnaria a capela de número 3 do Irajá, onde as conversas se davam em sussurros contidos. Inacreditavelmente, alguém havia se encarregado de encomendar camisas estampada com uma fotografia minha 3x4, embora eu não seja capaz de compreender como as pessoas conseguem organizar-se de tal forma nestes momentos. Por volta das onze da manhã da segunda-feira, sairíamos para caminhada final pela rua levemente inclinada de paralelepípedo, que cortava os jazigos mal-cuidados. Meu corpo embutido no ataúde de madeira seria transportado num carrinho guiado por um coveiro nordestino de nome Zé, indiferente a dor dos entes daqueles que sepultava. Uma voz um tanto embargada entoaria um canto fúnebre, dando ao cortejo ares teatrais. Quatro distintos cavalheiros, segurando as alças ergueriam meu caixão do carrinho para subir a escadinha que conduzia até a gaveta onde enfim, eu seria sepultado. Um dos cavalheiros reclamaria intimamente do peso, dirigindo alguns xingamentos ao meu cadáver. Em seguida, um silêncio sepulcral tomaria conta do estreito corredor de gavetas amontoado de gente que se acotovelava para ver o defunto mais de perto. Um desalento frio perpassaria os olhos de todos que ali estavam, mesmos aqueles que ali estavam por conveniência. O ruído oriundo da pá do coveiro, em atrito, com o cimento que selaria meu destino, despertaria a todos. Choros e soluços emergiriam das entranhas. Agora, penso em como eu gostaria de neste momento abraçar a todos aqueles que eu amo e em meus minguados músculos absorve suas dores.
Enfim, não seria a primeira vez que quase passaria desta para melhor. Sou hipertenso há alguns anos e minha arterial já extrapolou a casa dos dezoito. Já tive revólver apontado para carcaça, mas de fato (leia-se graças a Deus), o diabo do sujeito jamais pensou em puxar o gatilho. Noutra ocasião, balearam um sujeito alguns metros de mim e de tantos outros. E sem falar às vezes que a minha desatenção quase me levou para debaixo de carros, ônibus, caminhões e motos. E às vezes que dobrar à direita significa vida; à esquerda, morte. Mas isso é com todo mundo. Já quase morri afogado num destes passeios de sítio. Pensando bem, quem quase nunca morreu até o dia que encontrará com o único mal irremediável? Filosofam que a morte nos dar uma vida de vantagem, mas no final sempre vence. Morremos um pouco a cada dia (ah, como dói), até que tudo se esvai. Ou como diria Sêneca: “Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer”. Contudo, afinal de contas, desta vez, salvei minha vida, que como já falei: pode não ser grande coisa, mas é minha!
Davidson Davis
Escrito por Davidson Davis às 12h16
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Créunica - E o fetiche brasileiro pelo masoquismo
“Na dança créu tem que ter disposição. Na dança créu tem que ter habilidade. Pois essa dança ela não é mole não. Eu venho te falar: são cinco velocidades. A primeira é devagarzinho, é só aprendizado. È assim, ó: Créééééééééuuuuuu”. Créééééééééuuuuuu. Créééééééééuuuuuu“.
A mocinha desinibida faz beicinho, requebra o corpo cheio de sensualidade, alterna os punhos cerrados com a cintura num frenético exercício de vaivém. O rapaz sarado, sem muito remelexo (diga-se de passagem), num estilo Robocop tenta acompanhar a moça. Desengonçado, o chefe de família libera a libido adormecida. O vovô e vovó assanhados, muito mais lentos (é claro!), sorriem maliciosos. A dama da sociedade escondida num canto, em catarse, trepida o corpo.
O Créu tá aí, não adianta negar: é o maior sucesso na nossa prolifera temporada musical. Seja nas rádios, emissoras de Tv, programas de auditórios, festas de famílias, em bailes, em comemorações esportivas, em gozações (com perdão do trocadilho, se isso for um trocadilho) etc etc, tudo que se vê, ou melhor, se ouve e se quer: é Créééuuu. A expressão tornou-se um mantra, um canto Dionísico, uma ode, uma entidade mística. Só no Google há mais de 1.140.000 milhões de páginas em português. No Youtube proliferam os vídeos de anônimos dando e levando créu.
A simplicidade da letra que simula a execução do ato sexual em ritmos diferentes ao som do créu, créu, créu, até chegar a inacreditável velocidade de número cinco, tudo isso permeado por um tom de brincadeira aliado a uma boa dose de desafio, contribuiu para que a música caísse no gosto do povo e dos não tão povo assim. Atingir a velocidade cinco hoje em dia é a maior ambição nacional, é nível de excelência - embora já haja alguns fanfarrões que chegam a jurar de pés juntos que, mediante a treinamento excessivo, facilmente conseguem ultrapassar essa marca. O Créu é prova de fogo para as pulsões eróticas brasileira.
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A dança Créu espelha uma geração que cresceu com os sucessos do axé music repletos de coreografia erotizadas, como é o caso da música “Na boquinha da garrafa”; e sintetiza quase todas as canções românticas dos anos 90 para cá, como os pagodes melosos que quando não falam de um créu inesquecível, remetem a falta deste; e se enquadra numa tradição musical brasileira vocacionada ao erotismo, caracterizadas pelos ritmos e danças quentes desde do tempo do maxixe, das marchinhas carnavalescas, das músicas nordestinas de duplo sentido e de nossa dita MPB em maiúscula, mas sem recorrer a eufemismo poéticos do tipo:
“Sei lá, o que te dá, não quer meu calor. São Jorge, por favor me empresta o dragão. Dragão! Mais fácil aprender japonês em braile, do que você decidir: se dá ou não...” **
“Quem dera ser um peixe, para em teu límpido aquário mergulhar. Fazer borbulhas de amor pra te encantar, passar a noite em claro, dentro de ti. Um peixe, para enfeitar de corais tua cintura, fazer silhuetas de amor à luz da lua. Saciar essa loucura dentro de ti”. ***
“Me agarrei nos seus cabelos, sua boca quente pra não me afogar. Tua língua correnteza lambe minhas pernas como faz o mar. E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer, navegando nos meus seios, mar partindo ao meio não vou esquecer.” ****
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Como foi na ditadura com clássicos como “Pra não dizer que não falei das Flores” de Geraldo Vandré ou “Cálice” de Chico Buarque, e como é hoje e no futuro ainda continuará sendo, a música é um produto histórico do seu tempo pela qual é possível tecer considerações e refletir acerca dos anseios e desejos existente no seio duma sociedade, como bem alertou o jornalista Rodrigo Faour, autor do livro “História Sexual da MPB”: “Não sei se você já se deu conta, mas a música popular brasileira tem uma fantástica vocação para a crônica de costumes. Podemos contar a história do país por meio dela; não só a política, econômica ou social, mas também a amorosa e sexual”.
Então, o jovem Sérgio Costa, popularmente conhecido como MC Créu, profetizou, às avessas, o que muitos dos nossos intelectulóide não conseguiram visionar. O rapaz acertou em cheio, bem na mosca. Trouxe a tona o fetiche brasileiro pelo masoquismo. Revelou o que estava por trás da apatia tupiniquim. Na verdade, a tara é por umas boas pancadas. Gostam mesmo é de sentir prazer ao ser maltratado. Só assim é possível entender a disposição em levar tanto créu com um sorriso estampado na cara
1) O Brasil ocupa a nona posição no ranking de países com maior taxa de analfabetismo da América Latina e do Caribe, segundo levantamento elaborado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). De acordo com a UNESCO, as estimativas são cerca de mais de 14 milhões de analfabetos; 2) A saúde apodrece, nos hospitais milhares morrem sob os olhos da indiferença do Estado; 3) Nos últimos 20 anos o número da violência cresceu 237%, segundo pesquisa divulgada pela ONU. Se somarmos todas as vítimas do terrorismo em Israel, Palestina, Egito, Arábia Saudita, Irã e Iraque, não chegaremos sequer à metade do número de vítimas da violência em nosso país; 4) Anualmente, a corrupção endêmica no país, custa aos nossos bolsos uma quantia de 380 bilhões de reais; 5) Pelos menos 50 milhões de brasileiros vivem em estado de indigência. Ou seja, mais de 29,26% da população do país não conseguem atender minimamente as suas necessidades diárias. Tudo isso, porque somos a nona economia mundial, mas temos a quarta maior concentração de renda do planeta. Vamos parar por aqui, ok?
Como o próprio Mc exorta na música: “É Créu neles!”. Ou pior: em nós. Haja masoquismo. Dessa: eu estou fora.
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Post-scriptum. Papai e mamãe, irmãos e irmãs, vovós e vovôs, tios e tias: crianças não devem dançar o “Créu” e nem tantas outras músicas com letras apelativas que tratam de sexo, pois a forte carga erótica aliada a coreografias sensuais estimula elementos que não são adequados para as elas, induzindo-as a comportamentos inadequados que contribuem para precocidade sexual. De fato, outros fatores também devem ser considerados.
Davidson Davis
* Créunica – Expressão sugerida pelo amigo Paulo Marcel
** Se – (Intérprete e compositor: Djavan)
*** Borbulha de Amor – (Intérprete: Fágner e Composição: Ruan Luís Guerra)
**** Eu Que Não Sei Quase Nada do Mar – (Intérprete: Maria Bethânia – Composição: Ana Carolina e Jorge Vercilo)
Escrito por Davidson Davis às 12h09
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Narizes e eugenia
Não sou daqueles que engrossam o coro em repúdio a televisão; não atribuo a ela um poder maquiavélico de manipulação de nós espectadores como se fossemos todos condenados à passividade - como bonecos de marionete desprovidos de lucidez crítica. Mesmo assim, acredito que a televisão seja em parte a grande responsável pelo “amesquinhamento” do imaginário do povo brasileiro. Incoerência? Não. A questão é mais complexa. Porém, matéria para outra ocasião.
Outro dia, há algum tempo atrás, ligo a tv em busca de algo que me satisfaça, mudo de canal diversas vezes e, para meu espanto, constato que em três programas de auditório – quase simultaneamente – em canais diferentes, oferecem uma fantástica gratificação para o eventual vencedor: cirurgia plástica no nariz.
O curioso é que nenhum dos participantes do programa era o Michael Jackson, ou detentores de um nariz adunco com verruga peluda na ponta – típicos das bruxas – ou de qualquer outra anomalia que justificasse a tal cirurgia. Eram apenas pessoas aparentemente “normais” não satisfeitas com seus narizes, que desejavam substituí-los por uma versão mais nova.
A necessidade de se enquadrar num determinado padrão estético leva homens e mulheres a ir cada vez mais longe na busca do corpo escultural e do rosto perfeito – o mito de Narciso é uma dessas fábulas que mostram até onde pode ir a vaidade humana. O culto ao corpo é expressão da cultura do eugenismo que propõe a eliminação dos imperfeitos em busca de uma raça pura e perfeita. Tal ideal levado às últimas conseqüências já teve resultados desastrosos: seis milhões de judeus foram exterminados pelos alemães nazistas, valeram-se da idéia de superioridade para justificar a escravidão e, constituindo-se assim um campo fértil para práticas discriminatórias. Ainda hoje a eugenia pode servir como justificativa para atos atrozes: abortos de fetos com deficiência física ou mental, eutanásia de doentes terminais ou afetados por doenças incuráveis etc.
E, tão cruel ainda, é o risco que se corre de que todos os bons sentimentos venham a falecer. O ser amado difere-se de todos os outros. Como reconhecê-lo na multidão de rostos homogêneos ausentes de identidade? Como experimentar a expectativa do encontro se o indivíduo a se encontrado estará sempre ao nosso lado, já que todos são iguais? Andar nas ruas será um verdadeiro tédio. Surgirá uma raça de homens “perfeitos” como se saídos de uma produção em larga escala, porém, como máquinas, completamente desprovido de sentimentos.
A diversidade seja ela de que tipo for, é o maior patrimônio da humanidade e toda tentativa de exterminá-la deve ser prontamente reprimida.
Davidson Davis
Escrito por Davidson Davis às 12h02
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S.O.S, diga não ao sexo virtual!
Há alguns anos, assisti a um filme pornô - sabe como é, né? A adolescência tem dessas coisas – em que as personagens usufruíam um ciberespaço onde podiam realizar todas as suas fantasias sexuais. Para falar a verdade achei tudo muito esquisito, mas na ocasião o filme me serviu como uma luva.
Li uma matéria no “Jornal do Brasil“, e acredite se quiser, dentro de alguns anos será possível ter “relações sexuais” sem o toque, ou seja, o sexo virtual atenderá a todas as fantasias humanas.
Afirmam os cientistas: “aparelhos serão capazes de estimular o cérebro a criar uma experiência sexual sem ser necessário chegar ao toque dos órgãos genitais. Será possível desenvolver materiais eróticos que permitem criar um parceiro de certas dimensões e qualidades. Além de pode vir determinar o que dirá durante a interação. Simuladores já permitem que duas pessoas em dois computadores controlem vibradores”.
Não sou adepto do sexo somente com fins reprodutivos, nem banalizado na lógica capitalista, ou acompanhado do sentimento de culpa e autoflagelação. Na verdade, somos todos frutos de um momento de prazer. Papai e mamãe quiseram mesmo dá um belo e gostoso tapa na macaca. Resultado? Estamos todos aqui! Sexo é divino. Sexo é vida. Sexo é arte. Sexo é festa. É mais dentro de alguém que se pode estar.
Nada substitui o olhar de cumplicidade, as mãos entrelaçadas, as palavras ao pé do ouvido, a respiração ofegante, os sussurros e gemidos nervosos impregnados de gozo. Nada substitui aquela transa escondidinha na cama do quarto dos fundos, no carro, na varanda, na cozinha, no corredor, na praia ou onde mais a imaginação desejar. Claro que não falo do sexo pelo sexo – embora esse também seja formidável se não houver prejuízos para as partes -, mas falo em especial do sexo com amor. O maior encontro entre dois seres. A comunhão perfeita entre o corpo e a alma.
A ascensão do sexo virtual, em oposição à busca do orgasmo compartilhado, é reflexo de uma sociedade atomizada, sem comunicação e interação, onde as pessoas preocupam-se apenas com o próprio bem-estar.
Os defensores do sexo virtual argumentam que essa modalidade de “sexo” pode servir como instrumento eficaz contra a disseminação das doenças sexualmente transmissíveis que assolam o mundo. Imagine: os governos da Mãe África, não detentores de recursos necessários para luta contra o vírus HIV – responsável pela morte de um contingente de milhões em seu território -, desembolsando milhares de dólares junto às indústrias de jogos para aquisição de aparelhos que possibilitem aos seus, usufruírem um espaço virtual para realização de suas fantasias sexuais. Fala sério, né? Soa como piada de mau gosto.
As pessoas que sofrem de hanseníase, com o passar do tempo e o agravamento da doença, passam não mais considerar as partes afetadas pela enfermidade como sendo integrante do próprio corpo. O toque é fundamental para identidade do indivíduo. Em síntese, o fato de tocar e pode ser tocado assegura a nossa existência.
O confinamento da sexualidade em um espaço virtual é atestado contundente do esvaziamento das relações de gênero.
Escrito por Davidson Davis às 11h57
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